Independentes de Olaria divulga sinopse do enredo

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AO SOM DO CHORINHO VOU SORRIR… SEREI FELIZ, BEM FELIZ!

Apresentação

Foi aqui na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro que o chorinho nasceu, cresceu e foi batizado. O ritmo genuinamente carioca saiu de nossos quintais e ganhou o mundo. Muito de sua fama devemos à genialidade de Alfredo da Rocha Vianna Filho que reina, incontestavelmente, como o maior entre os artistas que fizeram parte da história musical do choro. Por essa razão, é o velho Pixinguinha que nos leva nessa saudosa serenata.

O músico viveu grande parte de sua vida no subúrbio da Leopoldina, entre os bairros de Ramos e Olaria, inicialmente residindo na Estrada do Engenho da Pedra e depois na Rua Belarmino Barreto, hoje Rua Pixinguinha.

A independentes de Olaria resgata o som de prata da flauta do mestre que conduzirá o cortejo em homenagem ao mais brasileirinho dos gêneros musicais.

Não há quem possa resistir
Quando o chorinho brasileiro faz sentir
Ainda mais de cavaquinho
Com um pandeiro e um violão na marcação

 

Nasci no Rio de Janeiro, em uma sexta-feira, dia 23 de abril. Era dia de São Jorge. As igrejas, ainda iluminadas pela luz de lampião, badalavam os sinos em louvor ao Santo Guerreiro enquanto nos terreiros os atabaques dobravam para Ogum.

Minha avó era africana e dela ganhei o apelido de Pizindim que, em sua língua, significa menino bom. Era comum ouvir pela casa sua voz doce cantarolando as cantigas nativas do seu povo, sobretudo de Angola e do Congo. Era o lundu batido na palma da mão e dançado de pés descalços, como faziam os escravizados em lamento ou em celebração.

O lundu foi um dos principais elementos musicais na formação do choro, tive a oportunidade de apreciar, ainda em sua essência, na casa de Tia Ciata na velha Praça Onze.

Enquanto o lundu descia o morro e conquistava as ruas da cidade, a polca, ritmo dançado de rostos e corpos colados, foi rapidamente substituindo o requinte musical que ocupava os belos casarões da alta sociedade com suas valsas, quadrilhas e minuetos. Foi nessa mistura musical entre a galhardia dos salões europeus com a ginga e a malemolência da batida que vinha das favelas que nasceu o chorinho.

Ainda nos tempos do Imperador, Joaquim Callado, o rei da flauta, oficialmente criou o primeiro grupo de choro do país: O choro do Callado, dando início ao primeiro time da nossa geração. É dele a composição flor amorosa, que mais tarde serviu de inspiração para Rosa, de minha autoria.

Flor amorosa, compassiva, sensitiva, vem, porquê?
És, uma rosa orgulhosa, presunçosa, tão vaidosa
Pois olha a rosa tem prazer em ser beijada, é flor, é flor
Oh! Dei-te um beijo, mas perdoa, foi à toa, meu amor

O Brasil passava por grandes transformações, caíram o Imperador e sua velha coroa. Deixar para trás tudo que lembrava os tempos do império e criar uma nova identidade nacional se tornou fundamental na construção da jovem república que entrava em cena. Era necessária uma independência política, cultural e artística.

E foi, surpreendentemente, em uma apresentação para toda a elite recatada e conservadora da mais fina sociedade do Rio de Janeiro que o famoso corta-jaca de Chiquinha Gonzaga entrou no salão oficial do palácio do catete, escandalizando os moralistas da época. Tal fato é considerado por muitos a alforria da música popular brasileira.

Os grupos de chorões foram se popularizando e a nova cadência do samba era absorvida cada vez mais, não só pelos seresteiros e malandros que empunhavam seus violões e pandeiros nas gafieiras e cabarés como também pela haute Société frequentadora dos grandes cinemas, teatros e cafés à francesa da cidade maravilhosa.

Até mesmo Heitor Villa Lobos se rendeu ao chorinho. Dizem que ainda menino escolheu o violão como primeiro instrumento porque amava o ritmo e sonhava em fazer parte de um grupo de chorões. Tive o prazer de conviver com o maestro nas rodas de choro do Catumbi e, anos mais tarde, foi meu parceiro musical no extinto Recreio de Ramos.

Entrei em cena muito novo. Aos onze anos já me apresentava, não oficialmente, com o conjunto do meu pai, que também era flautista e, aos treze, já fazia minhas primeiras gravações. Participei de inúmeros grupos musicais, destacando-se a Orquestra do Rancho, o Choro Carioca, o Trio Suburbano, os Oito Batutas, onde alcançamos prestígio internacional e, ainda, o grupo da Guarda Velha, ao lado dos meus grandes amigos Donga e João da Baiana.

Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus
À procura dos teus
Vem matar esta paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz

Na década de 1930 vivíamos a era de Ouro do Rádio. O choro, tal qual um bem-te-vi atrevido, alçava novos voos e ganhava notoriedade. Muitas das minhas obras fizeram bastante sucesso: Rosa, Naquele Tempo e Vou vivendo tocaram nos quatro cantos do país, mas nada comparado aos versos de Carinhoso, canção considerada minha obra-prima, que até hoje figura como um dos maiores clássicos da música brasileira.

Nunca abandonei o subúrbio, aqui nasci e fiz minha eterna morada. Foi na casa do bairro de Ramos com quintal de terra batida, à sombra de mangueiras e amendoeiras, que compus muitas de minhas obras, incluindo o hino oficial do Bairro.

Em minha homenagem, o dia nacional do Choro é comemorado no dia 23 de abril. Nessa data, músicos dos mais diversos lugares seguem em romaria à uma esquina na fronteira entre os bairros de Ramos e Olaria para reviver os grandes clássicos do chorinho. O lugar é fácil de encontrar! Basta perguntar pelo tradicional bar da portuguesa, onde permaneço sentado à minha mesa preferida, imortalizado em forma de monumento. Por lá, vez ou outra, aparece um boêmio para dividir comigo um copo de cerveja em oferenda, afinal quem morre dentro de uma igreja vira santo,  Saravah!

Carnavalesco: Bruno Oliveira
Pesquisa e Texto: André Bonatte


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