MANGUEIRA 2024 – LOGO, SINOPSE E JUSTIFICATIVA

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“A NEGRA VOZ DO AMANHÔ

Justificativa do Enredo

“A Mangueira está na minha história, está na minha vida e eu diria até que meu sangue é verde e rosa.” (Alcione, 2023)

A Estação Primeira de Mangueira para seu carnaval de 2024, ouvindo o clamor de sua comunidade, irá homenagear em seu desfile Alcione, umas das maiores vozes brasileiras e mangueirense histórica. A base para nossa narrativa será os caminhos percorridos pela cantora na construção de seu amanhã. Esses se dão, principalmente, por suas crenças, que promovem sentido à sua caminhada, aliado à música que lhe acompanha desde menina como missão e a cultura popular que a formata enquanto artista.

Sua história, narrada pelo amanhã, partirá da fé da cantora, pilar de sua vida, que tem como base a sua família, seus valores e tradições do Maranhão, não apenas uma religião específica. Sendo assim, há um trânsito inter-religioso baseado na própria vivência da cantora e no contato, desde menina, com a diversidade e mistura de credos, promovida por seus familiares e sua terra natal. Desenvolvendo um sentido amplo de sua fé que abarca santos, entidades, instituições, orixás, parentes e pessoas. Tornando-se, portanto, ponto de partida e norte para a construção de seu amanhã.

Se o Maranhão foi cenário de desenvolvimento de suas crenças, é responsável também pela imersão de Alcione na cultura popular, sendo palco de algumas práticas festivas que tiveram a participação ou o olhar da intérprete. Abrindo o calendário de festas, na companhia de seu pai João Carlos, cantava em ladainhas na “Queimação de Palhinha” em Dia de Reis. Chegando ao “Carnaval”, via os fofões brincando nas ruas, se fantasiava com suas irmãs com roupas feitas por sua mãe, Dona Felipa. Na “Turma do Quinto”, escola de samba da região para qual torce, pai e irmãos aproveitavam a folia e caiam no samba.

Nos festejos onde louva-se São João, São Pedro e São Marçal, está presente também o “Tambor de Crioula”, patrimônio cultural do Brasil, que consiste numa uma dança de origem africana em devoção a São Benedito, com saias rodadas, muito cantado por ela.  No mesmo período, brinca-se de Bumba Meu Boi, onde via seu pai dançar como caboclo de fita no “Boi de Leonardo”. Voltou para reviver suas memórias de menina no “Boi de Maracanã”, gravando uma de suas toadas mais importantes “Maranhão, meu tesouro, meu torrão!”. Os festejos maranhenses são, então, o espaço de pensar e construir o seu amanhã enquanto artista popular e contribuir para ele, já que, para além de festa, estamos falando sobre as formas de manifestações de uma população.

Somado a essa bagagem e a formação musical adquirida por Alcione, através dos ensinamentos de seu pai e a sua atuação na “Orquestra Jazz Guarani”, onde Seu João Carlos era maestro, desistiu de lecionar e mudou-se para o Rio de Janeiro em busca do sonho de ser cantora. Chegando em fins dos anos 1960, trazia consigo seus valores e seu piston, instrumento de sopro, que se tornaria companheiro na busca pelo seu amanhã. Seu primeiro contato com a música na cidade maravilhosa se deu como vendedora na loja ”Império dos Discos”, lançando-se, anos depois, em concursos de calouros e cantando pela noite carioca.

Ficou conhecida e recebeu diversos convites de trabalho que a levaram a se apresentar também na capital paulista, fazendo turnês pelo Brasil e pelo mundo e, entre elas, a que a apelidou de Marrom. Durante esse período, cantou diversos gêneros musicais como jazz, bolero, blues, em especial obras interpretadas por vozes femininas, mas foi o samba que mudaria sua vida desde então.

Em um momento de explosão do gênero na música brasileira, Alcione foi lançada como uma de suas primeiras cantoras negras, gravando em seu trabalho inicial um EP contendo duas faixas “Figa de Guiné” e “O sonho acabou”, no início dos anos de 1970. A partir desse momento, não parou mais, lançando mais de 40 discos, colecionando prêmios em 50 anos de carreira, cercados de muitos sucessos que acompanharam a cantora ao longo de sua trajetória, marcando, pelo menos, três gerações de brasileiros. Consolidando, assim, seu amanhã musical.

Marrom é a cor do Brasil por cantar, a partir do samba, a feminilidade, sua negritude, a potência cultural nordestina e as diversas emoções. Destacou-se no cenário musical com sua voz potente e carisma, mostrando que a mulher negra brasileira pode cantar seus sentimentos e posicionamentos, sendo um reflexo artístico da alma feminina e trilha sonora de tantos amanhãs. Os elementos de sua carreira, estiveram presentes também em seu programa de tv “Alerta Geral”, que estreou em 1979, cujo foco era exaltar a música brasileira em uma época onde o estrangeirismo era massivo.

Por fim, ressaltamos o laço estabelecido pela verde e rosa com a menina Alcione, a partir do Maranhão, se encantando pela ala de baianas através de revistas antigas, que retratavam o desfile da Estação Primeira. Sua paixão pela escola a fez se aproximar, em terras cariocas, dos baluartes, partideiros e líderes femininas da comunidade, passando a desfilar e tornando o amor pela Mangueira ainda maior e longevo.

As escolas de samba são fundamentais em sua carreira ao abraçá-la em suas apresentações ao longo dos anos, sendo pautadas, também,  por ela em seu projeto musical, gravando diversos sambas-exaltação e enredo, e ao mesmo tempo, entendendo o significado ancestral e cultural dessas manifestações.

A partir desta compreensão, e de seu olhar para o povo, expandiu sua participação no universo das escolas de samba, tornando-se militante e pioneira na atuação comunitária através do projeto de escolas mirins. Em 12 de agosto de 1987, fundou a “Mangueira do Amanhã” ao lado de Dona Zica e Dona Neuma, que passou a receber as crianças do morro para ensinar ofícios artísticos, como de mestre-sala e porta-bandeira, baiana e mestre de bateria, entre outros, e que pensa o futuro da Mangueira a partir das crianças de sua própria comunidade. Assim, em tons de verde, rosa e marrom, transformou o seu próprio amanhã como exemplo a tantos outros e tornou-se, também, elo de atuação em novos amanhãs. Em Mangueira, o amanhã é hoje e tem em Alcione sua negra voz!

Texto: Sthefanye Paz, Annik Salmon e Guilherme Estevão.


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