{"id":2928,"date":"2025-06-19T16:22:32","date_gmt":"2025-06-19T19:22:32","guid":{"rendered":"https:\/\/mundodocarnaval.com.br\/?p=2928"},"modified":"2025-06-19T16:22:32","modified_gmt":"2025-06-19T19:22:32","slug":"uniao-de-marica-apresenta-sinopse-do-enredo-para-o-carnaval-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mundodocarnaval.com.br\/pt_br\/uniao-de-marica-apresenta-sinopse-do-enredo-para-o-carnaval-2026\/","title":{"rendered":"Uni\u00e3o de Maric\u00e1 apresenta sinopse do enredo para o Carnaval 2026"},"content":{"rendered":"<p>Uni\u00e3o de Maric\u00e1 apresenta sinopse do enredo para o Carnaval 2026<br \/>\nTexto do carnavalesco Leandro Vieira apresenta a explica\u00e7\u00e3o narrativa sobre os balangand\u00e3s<br \/>\nA Uni\u00e3o de Maric\u00e1 divulgou, na noite desta segunda-feira (16), a sinopse do enredo \u201cBerenguend\u00e9ns e Balangand\u00e3s\u201d, que ser\u00e1 apresentado na S\u00e9rie Ouro do Carnaval 2026. Assinada pelo carnavalesco Leandro Vieira, a sinopse servir\u00e1 de base para o desenvolvimento da narrativa da escola no pr\u00f3ximo desfile.<\/p>\n<p>Sinopse<br \/>\nBERENGUEND\u00c9NS &#038; BALANGAND\u00c3S <\/p>\n<p>Estamos na velha Bahia, a Roma Negra como t\u00e3o bem definiu a ialorix\u00e1 Eugenia Anna dos Santos ao tentar dar conta da centralidade da cultura negra para a forma\u00e7\u00e3o da identidade daquele territ\u00f3rio. Voltando no tempo e olhando para o passado, estamos na beira do cais de uma antiga Salvador e, de l\u00e1 at\u00e9 a mais alta ladeira que nos leva \u00e0s portas dos sobrados da cidade alta, o que se v\u00ea \u00e9 o Brasil colonial e o vai e vem de corpos retintos apregoando aves, bolos, mingaus e peixes frescos.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 cena, o que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a quantidade de mulheres pretas empunhando tabuleiros que exibem bolos e frutas tropicais. Quitutes de toda sorte, ofertados a granel, que perfumam o ambiente. Perfume ora doce, ora salgado. Para comer com a boca e com os olhos.<\/p>\n<p>Nesse recorte p\u00fablico, quem olhar com mais aten\u00e7\u00e3o o sobe e desce das ladeiras, enxergar\u00e1 o luzir de joias feitas em ouro e prata enfeitando os corpos que desfilam. S\u00edmbolo de poder e status, os artigos s\u00e3o brincos para as sinh\u00e1s e an\u00e9is para os dedos dos senhores. Um camafeu ao gosto portugu\u00eas no colo de uma senhora de pele alva. Uma cruz bordada com incrusta\u00e7\u00f5es de rubis no peito do Bispo e, tamb\u00e9m (e por que n\u00e3o?) uma penca sonora junto ao ventre de uma preta que equilibra seu tabuleiro em meio ao som continuado que empresta uma sonora trilha para a sua caminhada: Barangand\u00e3ns&#8230;Belenguend\u00e9n&#8230;Berenguend\u00e9n&#8230; Balangand\u00e3s&#8230;<\/p>\n<p>Ornando seu corpo retinto em meio aos mart\u00edrios da escravid\u00e3o, o brilho das joias trazia a lembran\u00e7a de um territ\u00f3rio livre, aonde reis e rainhas eram cobertos por luxo e riqueza. De deuses engalanados e mulheres livres numa \u00c1frica &#8211; de ouro e de prata &#8211; que nem de longe podia ser imaginada no degredo da imposi\u00e7\u00e3o do trabalho for\u00e7ado nos tr\u00f3picos.<\/p>\n<p>\u00c0 luz do sol que ilumina uma Bahia escravocrata, a presen\u00e7a de metais preciosos reluzindo como ornato para um corpo negro de mulher evocava, em quem os ostentava, a mem\u00f3ria dos metais que deram fortuna \u00e0 soberana hauss\u00e1 Amina de Zaria. Uma joia, em uma mulher preta da Bahia de tempos idos, trazia a presen\u00e7a de Nzinga, a Rainha de Matamba e as hist\u00f3rias de que, ap\u00f3s ser vitoriosa em uma guerra, teria sido vista coberta por fios de lat\u00e3o, ligas maci\u00e7as e fartura de colares dourados.<\/p>\n<p>Ali, balan\u00e7ando feito chocalho junto ao corpo, estava tamb\u00e9m saberes africanos sobre a fundi\u00e7\u00e3o dos metais. Na pe\u00e7a, que funcionava como adorno, est\u00e1 o trabalho das m\u00e3os de um negro mal\u00ea que deu a um cilindro os desenhos feitos no cinzel e o espa\u00e7o oco em que as pretas guardavam seus p\u00f3s de mandingas ou, quem sabe, fragmentos do alcor\u00e3o tidos como relic\u00e1rio. <\/p>\n<p>Eternamente gravadas nas pe\u00e7as ornamentais que embelezavam o baixo-ventre de mulheres negras, est\u00e3o as digitais dos negros da Guin\u00e9, vindos do Imp\u00e9rio Ax\u00e2nti, seus saberes sobre a extra\u00e7\u00e3o dos metais, sobre a faisca\u00e7\u00e3o do ouro, as filigranas desenhadas em fios t\u00e3o preciosos quanto precisos e o culto a Ogum.<\/p>\n<p>Sobre isso, \u00e9 curioso pensar que, no som do balan\u00e7o das teteias pendentes que deram nome \u00e0 pe\u00e7a ornamental produzida em territ\u00f3rio brasileiro, tamb\u00e9m est\u00e1 o toque ritmado do adarrum que sa\u00fada Ogum, divindade trazida pelos cativos vindos para c\u00e1 na travessia das calungas. No ouro ou na prata dos balangand\u00e3s est\u00e1 a mem\u00f3ria ancestral da forja do senhor do ferro e a emula\u00e7\u00e3o fragmentada de seu assentamento de fetiches pendentes. Ele &#8211; o balangand\u00e3 &#8211; \u00e9 parte da armadura da divindade que guarda com as suas armas o corpo alheio. Sua espada, sua lan\u00e7a e a sua faca transmutada em joalheria.<\/p>\n<p>Um chocalho de badulaques. Berloques encantados para as pretas que os ostentavam no balan\u00e7o das caminhadas. Balan\u00e7ando pra l\u00e1 e pra c\u00e1, via-se requebrando junto aos quadris que se mexiam, uma chave propiciat\u00f3ria na inten\u00e7\u00e3o de abrir caminhos. A evoca\u00e7\u00e3o para a incorpora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de um gato-maracaj\u00e1 em um dente felino encastoado de prata. Um adorno barroco e tropical onde o pouso de dois papagaios est\u00e1 eternamente aprisionado em uma am\u00e1lgama met\u00e1lica r\u00edgida presa \u00e0 cintura por uma corrente de argolas.<\/p>\n<p>Amuleto para pender uma figa de jacarand\u00e1, azeviche ou coral. Evoca\u00e7\u00e3o de ancestralidade com sabor de fruta fresca. O culto aos orix\u00e1s transmutado nas curvas de cajus com castanhas de ouro oco (Ka\u00f4 Kabecil\u00ea, valei-me meu pai Xang\u00f4!); em gordas rom\u00e3s bordadas em prata (Epahey, senhora das nuvens de chumbo!); ou em belos abacaxis enfeitados com espinhentas coroas met\u00e1licas (Atot\u00f4 B\u00e1b\u00e1, a sua ben\u00e7\u00e3o Omulu!)<\/p>\n<p>Era visto rebolando nas cinturas das pretas engalanadas nas festas da Concei\u00e7\u00e3o da Praia. Presente na mem\u00f3ria dos encontros na Igreja da Barroquinha. Chocalhando na Baixa do Sapateiro junto aos festejos de Santa Barbara ou em meio \u00e0 brancura das rendas e dos camisus das pretas que se apressavam rumo \u00e0 colina do Bonfim. Artigo misturado junto aos brincos de pitanga e aos colares agigantados, brilhando em penca, na beca e nos panos-da-costa das mais antigas irm\u00e3s da Irmandade da Boa Morte.<\/p>\n<p>Joias fartas luzindo diante dos olhos de uma sociedade racista. Artigo subversivo que documenta o \u00eaxito de mulheres rebeldes que se deixaram chamar de &#8220;sinh\u00e1s pretas&#8221; tamanha a riqueza acumulada. Matronas ancestrais que se tornaram s\u00edmbolos de ascens\u00e3o social e liberdade. Donas de seus caminhos quando os caminhos ostentavam portas fechadas. Mulheres que fizeram de suas joias um cofre que se carregava junto do corpo. Poupan\u00e7a e pec\u00falio para planos maiores e opera\u00e7\u00f5es financeiras que lhes garantiram o maior dos investimentos: a compra da pr\u00f3pria liberdade.<\/p>\n<p>Nesse artigo de rara beleza, exemplar de uma joalheria retinta, est\u00e1 a hist\u00f3ria de mulheres que deixaram como heran\u00e7a para seus descendentes a experi\u00eancia de terem sido alforriadas por assinaturas advindas de m\u00e3os negras. Um ba\u00fa de ouro traduzido em joias inventariadas que nos lembram uma luta vertida em enfeites que embelezam. Um legado ancestral que revela a identidade e as \u00e2nsias de mulheres pretas que, apesar da crueldade imposta pelo sistema vigente, encontraram brechas e conquistas que resultaram em bens, luxo e poder.<\/p>\n<p>Seus nomes, vamos descobrindo por terem sido gravados por elas em ouro e prata. Nas pratas que fundem as grossas alian\u00e7as que se entrela\u00e7am para formarem os colares deixados em testamento por Marcelina da Silva &#8211; uma negra natural da Costa da \u00c1frica &#8211; para sua filha, de nome Magdalena. Nas mem\u00f3rias imaginadas de um Rec\u00f4ncavo rom\u00e2ntico onde viveu \u201cMariquinha dente de Ouro\u201d &#8211; aquela que se cobria &#8220;com roupas de linho bordadas de barafunda&#8221; ou na farta penca de berloques presentes no balangand\u00e3 de Florinda Anna do Nascimento, a rainha de \u00c9bano brejeiramente chamada Ful\u00f4, que sorri coberta de joias em registro fotogr\u00e1fico que funciona n\u00e3o apenas como prova material de suas conquistas individuais  &#8211; e das investidas de in\u00fameras pretas detentoras de posses no luxuoso mundo das joias &#8211; mas, tamb\u00e9m, da hist\u00f3ria que agora proponho contar como enredo.<\/p>\n<p>Enredo, pesquisa, desenvolvimento e texto: Leandro Vieira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uni\u00e3o de Maric\u00e1 apresenta sinopse do enredo para o Carnaval 2026 Texto do carnavalesco Leandro Vieira apresenta a explica\u00e7\u00e3o narrativa sobre os balangand\u00e3s A Uni\u00e3o de Maric\u00e1 divulgou, na noite desta segunda-feira (16), a sinopse do enredo \u201cBerenguend\u00e9ns e Balangand\u00e3s\u201d, que ser\u00e1 apresentado na S\u00e9rie Ouro do Carnaval 2026. 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